Todos os escritores da janela do carro
Da janela do carro se via a chuva dançando. Na madrugada, a escuridão desenhou silhuetas e sussurrou palavras assombradas. O perigo traça as linhas dessa paisagem obscura. É uma prisão, as grades são feitas de açúcar e mesmo assim é impossível desfaze-las. Um corpo desnutrido a beira de tanta poesia sem sentido; e o sentido se crava na própria pureza inexistente. Porque não há, não há castelo algum que tenha contos de fada. E de fato não existe nuvem feita de algodão, mas mesmo assim quero deitar num gramado verde e pensar no significado das cores. Como é que se fala do azul sem mencionar o azul do céu? E vieram me dizer que ele não é azul, e que o mar pode ser verde, mas na verdade, também não é. A janela do carro trás lembranças e revive-las é a forma mais sutil de traze-las de volta para um momento que quase não existe; o hoje. Hoje foi futuro de algum dia e certamente será passado. Ou será futuro e foi passado? As vezes não sei, porque não posso toca-lo. Não posso fazer com que seja só presente... Porque não é. É um amontoado de espaços vazios e hoje, talvez só hoje, eu não seja capaz de enxergar suas cores, porque não ha cor no no mundo que consiga colorir as lembranças que a janela do carro trás.
Larissa Néri